abril 20, 2017

PRIMEIRAS IMPRESSÕES — LACRYMOSA, JULIANA DAGLIO

Suor frio.
Definitivamente é uma das sensações que se pode ter durante a leitura de Lacrymosa, o mais novo livro da autora Juliana Daglio.


Bem no prólogo os mistérios já tomam forma. A expectadora relembra conta sobre uma adolescente que foge de casa, como modo de preservar sua família. O que aconteceu exatamente, não se sabe, mas uma coisa está clara: É graças ao mal que parece acompanhar os passos da menina de apenas 16 anos.
Visões de demônios, vozes, cheiros pútridos a acompanham desde que era uma criança.
Tão nova e tão marcada.
A narradora, como nos é revelado, é Valery Green, e a adolescente que observava, durante a narrativa, uma versão antiga dela mesma.

Mas quem é Valery Green, afinal? O produto de uma garotinha que, desde pequena, conheceu e foi tocada pelo mal? Um resultado de uma adulta que teve que conviver com escolhas que foi obrigada a fazer? Ela mesma saberia juntar todos os pedaços que repousam embaixo das várias camadas que tem, ou só chegaria a uma nova versão de si mesma, mais uma, das inúmeras que teve que desenvolver?
Valery é uma personagem complexa, imprevisível e, por isso mesmo, visceralmente real. Ela é forte, mas ao mesmo tempo vulnerável ao que diz respeito aos demônios que assolam seu passado (literalmente). Marcada. Mudada. Reinventada. Costurada.
Durante cinco anos ela conseguiu manter-se longe do mal, mesmo que ele estivesse sempre à espreita. Tornou-se uma detetive respeitada. Fria e misteriosa, passou a desvendar as maldades humanas, maldades essas com as quais sabia lidar. De certa forma foi quase como se o verdadeiro mal não existisse. Como se seu passado fosse um pesadelo turvo e distante. Valery conseguiu uma vida de mentiras para contar aos outros, para si mesma. Mas então o mal está de volta e, com ele, tormentos dos quais Valery fingia acreditar estar livre.
Ela sempre soube que não estava.



No segundo capítulo um novo personagem nos é apresentado com uma brilhante quebra de expectativa. Trata-se de um padre, residente na Itália, mas, sobretudo, trata-se de outra alma também modificada pela marca do mal. Eu me apaixonei pelo personagem instantaneamente e pela quebra do estereótipo que ele poderia apresentar. Ele não é um santo e suas características humanas ou de um humano que lida com demônios o enriquecem como personagem, deixando o leitor curioso para entender como foi que ele acabou naquela vida também.


"Irônico. Quanto mais perto da luz você fica, mais próxima está a marca da Besta. Quanto mais lhe é dado, mais lhe será requerido." 
Lacrymosa, Juliana Daglio

Outro personagem que nos é apresentado é Axel Emerson, também policial e dupla de Valery. Porém extremamente ingênuo a respeito do mal que a cerca.
Sendo eu uma pessoa que não dispensa uma pitada de romance quando ele me é apresentado, as interações de Valery com seu parceiro me ganharam. Apesar da inexistência de uma cena verdadeiramente romântica — até o capítulo lido — o casal tem química e os flertes geralmente utilizados como fuga de alguma coisa, por parte de Valery, são muito bons. Eles não estão em um relacionamento, longe disso, mas a interação traz ainda mais veracidade ao enredo de Lacrymosa.


"O modo herói e o policial paranóico brincando dentro dele, engalfinhando as paredes dos pensamentos, até que se decidisse por um, ou inventasse um terceiro elemento." 
Lacrymosa, Juliana Daglio


Eu soube, desde que vi pela primeira vez a premissa, que gostaria de Lacrymosa. As minhas expectativas sempre estiveram altas, ainda mais tratando-se de um livro escrito pela Ju Daglio, autora que admiro e acompanho nas redes sociais. Mas o problema de se criar expectativas é que podemos nos decepcionar.
Não foi o que aconteceu.
Eu me apaixonei pelos quatro primeiros capítulos de Lacrymosa e me agarrei a eles com fervor. Ávida para ler logo e ao mesmo tempo temerosa de acabar rápido demais.
Com metáforas visuais e extremamente inteligentes, a escrita da Juliana Daglio envolve, prende e conta a verdade nua e crua dos personagens.



"Eu sabia que a maior parte do mal do mundo era feita pelos próprios homens. Seus desejos hediondos, o potencial egoísta assassino presente na semente da alma, que somados resultavam na decadência da espécie. Homens matando homens, disputando lugares, corpos, dinheiro.
E todos culpavam o Diabo. As coisas mais largas da história do homem." 
Lacrymosa, Juliana Daglio


Em vários pontos da leitura Juliana descreve com primor como é sentir o mal na pele de Valery. Os sentimentos são tão densos que tornam-se palpáveis, atravessando o papel e, de repente, você se pega sentindo dizendo: Não olhe por cima dos ombros. Não. Não olhe agora. Porque pode estar bem atrás de você, à espreita. Lembre-se: Ele não precisa de um convite.


Mesmo com essa atmosfera pesada que ronda o leitor, é inevitável cessar o passar das páginas. A escrita é viciante e torna-se necessário saber mais sobre Valery, sobre o mal e sobre como estão interligados, mesmo que isso resulte numa noite insone de luz acessa.
E não é essa a delícia do horror? O calafrio que sobe pela espinha, os passos que se apressam no corredor escuro enquanto a história ronda a mente. Juliana alcança essas sensações e o faz com maestria.
Eu indico para todos que adoram histórias de terror, enredos com alta carga psicológica ou, simplesmente, para amantes de bons livros. Mal posso esperar por ter Lacrymosa inteiro em minhas mãos e conhecer mais sobre os personagens fantásticos e o enredo maduro, obscuro e misterioso criado pela Juliana Daglio.

"Já não se importava mais com a besta de tanto vê-la em todos os cantos. No fim descobrira que não precisava ouvir músicas sobre o diabo para que ele notasse sua existência e quisesse roubar sua alma. O Diabo não ouve música. Nem as que falam sobre ele." 
Lacrymosa, Juliana Daglio


Ansiedade define e, enquanto aguardo, vou tratar de deixar a porta fechada. A chave girada. Talvez comprar alguns trincos. 


SINOPSE:
O nome dela não é Valery Green. Também não nasceu no Kansas, e sua família toda não morreu num acidente de carro onde ela foi a única sobrevivente. Nascida num mundo de trevas e segredos apocalípticos, a garota feita de mentiras luta dia após dia para ter uma vida longe de sua verdadeira identidade e de seu dom misterioso, o qual ela julga como uma maldição.
Por cinco anos, ela conseguiu. Escondida na pacata Darkville, tornou-se uma respeitada Detetive, conhecida por sua frieza e eficácia no trabalho. Seu companheiro Axel parece ter orgulho de trabalharem juntos, até ficar frente a frente ao que encontraram na busca daquela noite - um demônio dentro de uma garotinha.
Para ajudar a pequena Anastacia, Valery terá que colocar em risco o trabalho na polícia e seu relacionamento com Axel, recorrendo à ajuda do Padre Henry Chastain, um velho conhecido. Desenterrando um passado cheio de exorcismos, perseguições e batalhas contra demônios, esse reencontro não promete ser feito de abraços e boas-vindas.
Chas, como ela o chama, é conhecido como o maior Exorcista vivo - a Espada de Sal do Vaticano, e é sua única esperança de lutar contra o novo inimigo, mas também representa o ponto fraco de si mesma e o acesso a um passado doloroso que pode despertar seus próprios demônios interiores.
Contatos: lacrymosa.jd@gmail.com

Insta: @judaglio2

2 comentários:

  1. Anaaa, QUE RESENHA MAIS LINDA!
    Fui lendo o texto e vibrando: é de Lacrymosa que ela está falando, meu deeeus!!
    Muito feliz que tenha captado a essência dos personagens, gostado das descrições e se sentido conectada já à história. Só tenho mesmo a agradecer por ter lido e por falar dele com tanto carinho. Você mora no meu coração.
    E agora faz parte da história da Valery!! <3

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  2. Nossa ... Já da pra perceber que esse é um daqueles livros que só largamos depois de tê-lo terminado! Percebo que a autora soube montar de belíssima forma o enredo, e apesar de um pouco de medo (rsrsrs)eu estarei anotando (minha lista só cresce). Ficarei esperando a resenha quando você ler o livro completo! Beijos do Wes ^^
    www.facesemlivros.com

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